A Bíblia e as suas Traduções March 3, 2009 Escrito por Maer em : Artigos Diversos, Maer , trackback Toda tradução contem interpretação.

A primeira vez que me debati com a questão de como a Bíblia é traduzida foi quando a li pela primeira vez em inglês. É inevitável não notar diferenças. Lembro-me de uma passagem em específico (entre várias) que me fizeram parar e pensar: “não lembro disso na Bíblia!.”

Uma foi Lucas 14:26 que diz:

Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.

Em inglês, esse versículo foi traduzido assim:

If anyone comes to me and does not hate his father and mother, his wife and children, his brothers and sisters– yes, even his own life– he cannot be my disciple. (NIV)

[Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs – sim, até a sua própria vida—não pode ser meu discípulo.]

Essa é uma diferença significativa. Aborrecer e odiar são coisas diferentes. Ir a uma tradução moderna não ajuda muito pois a Nova Versão Internacional (NVI), por exemplo, escolheu traduzir esse versículo assim:

Se alguém vem a mim e ama o seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo.

Nessa etapa do campeonato, é razoável perguntar o que é que Jesus então está falando. Em outras palavras, Ele está falando que não posso ser seu discípulo quando eu não aborreço, odeio, ou amo essas coisas mais do que Ele? O que ele disse no original?

Bem, neste caso a palavra odiar está mais próxima do original em grego. Mas devemos pensar mais um pouquinho sobre a razão dessas diferenças. A minha esposa tem um daqueles dicionários de português que você precisa de um carrinho de mão para carregar, então fui lá para ver a palavra aborrecer. O sentido de aborrecer é de sentir horror a; abominar; causar aversão, repugnância, enfado ou aborrecimento. Aborrecimento tem um sentido secundário de ódio, mas é ligado mais à aversão (ou seja, quando você aborrece, você causa “ódio” na outra pessoa). O tradutor João Ferreira de Almeida (ou os seus revisores) pode ter escolhido a palavra aborrecer por que talvez o seu significado naquela época (século 17) estava mais próximo do nosso odiar de hoje. Talvez. Ou talvez aborrecer era uma palavra equivalente a odiar, mas não tão chocante (isso é chamado eufemismo, isto é, por exemplo, quando falamos que uma pessoa é “forte” quando queremos dizer “gorda”). Não sabemos por certo. Mas mesmo se a palavra aborrecer significava odiar séculos atrás em português, ela não é usada com esse sentido hoje. Não é de se espantar que eu achei esse versículo estranho em inglês.

Então, será que a NVI está mais correta? Obviamente os tradutores estavam cientes que o grego dizia odiar, mas isso levanta a pergunta: o que odiar significa? Em outras palavras, não é estranho que Jesus está dizendo que devemos odiar o nosso pai, mãe, etc.? O que a NVI tenta fazer é explicar o que “não odiar” significa. Na definição deles “não odiar” nesse contexto significa “amar mais.” Se eles estão corretos ou não são outros quinhentos, mas o que isso levanta é a questão se a palavra odiar faz jus à palavra no grego. Devemos lembrar que o grego falado na época de Jesus não se fala mais hoje e sempre há um grau de probabilidade quando estamos traduzindo certas palavras. Então simplesmente dizer que odiar é exatamente o que o grego significava é uma ilusão. É por isso que uma tradução sempre contem interpretação. As vezes algumas pessoas dizem em tom de brincadeira, “o que a palavra tudo significa em grego? Resposta: A palavra tudo em grego significa tudo.” Mas quem está ciente do processo de tradução/interpretação reconhece que tudo em grego geralmente significa tudo. Então é sempre importante estarmos fazendo perguntas básicas sobre o significado das palavras, e, nesse sentido, a NVI está de parabéns

Então como é que esse versículo deveria ser traduzido? Se eu não tivesse escolha de várias traduções e tivesse que escolher uma, eu optaria pela tradução com a palavra “odiar.” Em primeiro lugar, sabemos o que queremos dizer quando usamos essa palavra e aborrecer hoje distorce o seu sentido (um pregador teria que parar para explicar o que aborrecer significa hoje em português). Não há necessidade de usarmos termos arcaicos se lembrarmos que a finalidade de uma tradução e colocar a palavra de Deus no alcance de todos (não apenas dos eruditos). Por outro lado, a tradução da NVI tira do leitor a chance de se deparar com a palavra odiar e se perguntar: “o que Jesus quis dizer com isso?” Parte de ler a palavra de Deus é de estarmos lidando com as dificuldades do texto. O que a NVI nos dá é uma interpretação do seu entendimento do texto que, no final das contas, é falível. Quando eu leio a palavra “odiar,” vejo-me na necessidade de buscar mais, conversar com pessoas que já lidaram com esse texto e de entrar num processo de interpretação dentro da comunidade da fé (os nossos irmãos e irmãs em Cristo). Isso nos mostra que a leitura da Bíblia não pode ser algo somente individual mas é algo que deve sempre ocorrer dentro da comunidade, na igreja. E, através deste processo e pela graça de Deus, estaremos crescendo em sabedoria e conformidade a Cristo.

Escolhi esse exemplo não apenas por causa da minha experiência ao ler a Bíblia numa outra tradução, mas também por que há um perigo de divisão entre aqueles que acham que João Ferreira de Ameida é uma tradução mais fiel ou que a NVI, por ser muito mais fácil de entender, é mais fiel. Esse exemplo mostra que as duas têm os seus limites, e outras traduções também terão. Eu perguntei qual seria a minha escolha do versículo acima “se eu não tivesse escolha de várias traduções.” Felizmente eu tenho e creio que muitos de nós também têm. Por isso eu aconselho que você tenha mais que uma Bíblia em várias traduções (em nossa igreja muitos já lêem a Bíblia em português e inglês) e tente variar a sua leitura bíblica com traduções diferentes. Um amigo meu, hoje ele é pastor, sempre lia a Bíblia toda no decorrer de um ano, e todos os anos ele usava uma tradução diferente. Há muita sabedoria nisso. Alguns de vocês gostam de traduções mais contemporâneas e talvez seja a hora de ler uma tradução mais antiga. Vai ser mais difícil? Vai. Vai valer a pena? VAI! Alguns de vocês já estão tão acostumados com traduções mais antigas que ler a Bíblia numa mais contemporânea parece até pecado (ou como uma amiga um dia me disse, “se eu ler qualquer versão que não seja João Ferreira, eu não sinto que estou lendo a Bíblia”). Talvez você está colocando mais confiança na sua tradução e conforto do que deveria. Com uma geração nova crescendo com traduções novas, é importante que você esteja avaliando como essas traduções estão influenciando essa geração tal como a sua tradução te influenciou (positiva e negativamente).

Vivemos numa época com muitas opções. É irônico que certas línguas têm dezenas de traduções e outras não têm nem sequer uma. É triste ver a comercialização que gira em torno de traduções e Bíblias de estudos. No entanto, devemos nos lembrar que por traz do produto final, houve o trabalho árduo de muitas pessoas cujo intuito é fazer com que a palavra de Deus seja melhor compreendida. Cabe a nós usarmos esses recursos que muitos quiseram ter e não puderam, e que hoje estão ao nosso dispor.

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